domingo, 19 de outubro de 2014

Deuses de Dois Mundos - O Livro do Silêncio

Sou carioca, mas vivo em Salvador, na Bahia, desde bem pequeno. Inclusive me considero soteropolitano. Logo a cultura baiana, as suas festividades, o candomblé, os terreiros e pais de santos, a culinária do dendê, tudo isso fez parte da minha vida de maneira direta ou indireta. Contudo muitos desses elementos sempre envolviam grande mistério, já que fui criado na religião católica. A curiosidade sempre estava lá: quem eram os orixás? O que realmente eles significavam? Entrando numa livraria identifiquei "O Livro da Traição", capa dura e com um vermelho vibrante. Quando eu soube do assunto e - melhor - o autor era brasileiro, meus olhos brilharam. Comprei os dois primeiros volumes de imediato.

Terminei o primeiro livro - "O Livro do Silêncio" - em menos de uma semana. Uma leitura leve, que iniciou com certa estranheza, pois os capítulos são intercalados por duas linhas de narrativa diferentes, sendo que uma é em primeira pessoa e a outra em terceira. Porém rapidamente o que parecia ser estranho, começou a fluir muito bem, lembrando o sistema utilizado por Dan Brown, com um clímax no final de cada capítulo (quem já leu "O Código da Vinci" sabe o que estou falando).

Com o tempo me senti lendo uma história de fantasia com nomes conhecidos (os orixás!), uma saga que muito me lembrou as sessões de RPG da minha juventude. Dois mundos interligados: heróis com poderes surpreendentes de um lado, um jornalista ambicioso numa trama de conspiração do outro! Recomendo a todos que gostam de uma boa aventura!



sábado, 14 de dezembro de 2013

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d´Adèle)

Dirigido por Abdellatif Kechiche, esse filme francês recebeu a Palma de Ouro em Cannes este ano e é baseado numa graphic novel (história em quadrinhos) também francesa, publicada em 2010. O título original do filme pode ser traduzido como "A Vida de Adèle" e conta a história dessa jovem, uma garota tímida, mesmo assim cercada de amigos. Com sua família há pouco diálogo e a rotina a consome. Até que uma jovem de cabelo azul cruza seu caminho, levando-a numa jornada de auto-conhecimento, da descoberta da própria sexualidade e da busca pelo amor.

A cena em que mostra pela primeira vez sua família já denota uma dinâmica disfuncional presente, além do contexto socio-econômico em que Adèle se encontra. Sentados na mesa da cozinha, comendo macarronada à bolognesa, o diretor se atem a uma alternância de planos individuais, cada um saboreando a sua refeição caoticamente com vinho tinto, ao som da TV, ligada em um Game Show, até concluir num plano mais aberto mostrando a família atenta ao programa. Tudo é passado de forma sutil, apenas na fotografia. E fica mais evidente mais a frente, quando Adèle vai visitar a família de Emma, a garota de cabelo azul: uma família mais sofisticada e tolerante, que toma vinho branco e come frutos do mar.

O diretor não subestima nunca o espectador. A elipse temporal sempre é crua, muitas vezes confirmada pela mudança da cor do cabelo de Emma, outras vezes por mostrar Adèle numa passeata gay, em uma fase em que já está assumindo seu romance. Acompanhamos de maneira restrita os acontecimentos, tudo baseado no ponto de vista da protagonista. Apesar disso sentimos constantemente que sabemos sempre mais do que ela, a história nos faz tirar conclusões racionais das quais ela não é capaz: no início, por estar confusa demais sobre sua sexualidade, e depois, obnubilada demais por amor.

Graças a atuação fantástica da atriz Adèle Exarchopoulos podemos perceber com naturalidade, através dos pequenos trejeitos da personagem Adèle, a sua insegurança, desencadeando nesse processo uma angústia também no espectador que não consegue decifrar o que se passa pela cabeça da protagonista. Vale ressaltar também a atuação de Lèa Seydoux, que faz o papel de Emma. Através de sorrisos, ela demonstra sua fascinação pela inocente e curiosa Adèle; através de olhares, ela demonstra alegria mas também dominância na relação.

O romance evolui para um drama "machadiano" bem construído. Na festa de aniversário de Emma, na segunda parte do filme, as duas já estão em um relacionamento bem sedimentado, moram juntas a um certo tempo. Enquanto Adèle dança com um rapaz nitidamente interessado nela, sua atenção está focada em Emma, que conversa com uma amiga numa animação levemente suspeita. Os planos enquadram constantemente Adèle com o rapaz, mas também entra no quadro um telão onde se passa um filme preto e branco (os convidados de Emma são artistas). Interessante notar que no telão está mostrando cenas de suspense e terror, com uma jovem expressando pavor, uma insinuação da psique de Adèle. Suas suspeitas não serão corroboradas, mas, até a conclusão da película, o diretor brilhantemente nos dá pistas dos acontecimentos... Claramente, a protagonista está cega demais para perceber.

Adèle conseguiu concretizar aquilo que nem todos conseguem: preencher o vazio ao encontrar a sua cara-metade. Discussão essa que ocorre no começo, em sala de aula, sugerindo já a temática do filme, com muitos alunos questionando sobre a viabilidade do "amor a primeira vista". Porém, por uma ironia do destino, foi exatamente o que aconteceu com Adèle ao atravessar aquela rua e se deparar pela primeira vez com a figura quase etérea da garota de cabelo azul. Emma sempre fora uma jovem comum, mas para os olhos de Adèle, a atitude e a aparência transviada do outro lado da rua já tecia quase uma divindade inatingível. Consegui-la foi uma realização pessoal e a fez ignorar todos defeitos e fatos que a faziam ser humana.

domingo, 1 de setembro de 2013

O Espadachim de Carvão - RESENHA


Affonso Solano é ilustrador e apresentador de um podcast de humor chamado "Matando Robôs Gigantes". Em março desse ano, foi publicado pela editora Fantasy seu livro "O Espadachim de Carvão", que se passa em um mundo fantástico chamado Kurgala. Adapak, um jovem de pele escura e olhos brancos, morou com seu pai, um dos quatro deuses de Kurgala, até os 19 anos em sua ilha sagrada. Isolado do resto mundo, tinha a sua disposição livros e mais livros, e foi treinado a ser um exímio espadachim. Contudo um incidente terrível o obrigou a fugir de sua morada e a encarar o maravilhoso e traiçoeiro mundo exterior.

Affonso possui uma narrativa simples, pouco rebuscada, com um estilo bem ágil e característico de livros infanto-juvenis. Essa característica poda agradar uns, embora leitores mais "calejados" podem considerar o texto pouco elaborado. A ação é descrita com detalhes, com uma precisão quase cinematográfica. O enredo foi bem trabalhado e planejado, transitando entre o presente e o passado do personagem, numa dinâmica muito interessante de alternância de capítulos. Em momentos pontuais, certas circunstâncias que envolvem o ingênuo protagonista levam a um ensinamento, uma provável intenção do autor de passar uma opinião através dos diálogos... Trechos esses me incomodaram pois não pareciam naturais, soaram como trechos de "auto-ajuda"... Mas, felizmente, ficam escassos ao longo da trama.

Vale exaltar a fértil criatividade de Affonso Sollano, ao inventar um mundo totalmente novo, com criaturas inteligentes das mais diferentes raças, cada uma com suas características próprias. É comum encontrarmos nos livros de fantasia criaturas já conhecidas, como elfos, orcs, dragões... Ou, quando se trata de ficção científica, os seres descritos como "diferentes" sempre são alienígenas. Kurgala apresenta seres vivos inéditos, muito peculiares, alguns até difíceis de imaginar. Detalhes da geografia e da flora são pouco abordadas (afinal o objetivo do autor era deter-se na narrativa, não no ambiente), entretanto conseguimos nos ambientar facilmente nesse mundo mágico. (Clique aqui para ver o mapa de Kurgala)

No geral, é uma história muito divertida, com muita ação e aventura. A trama, que inicialmente se mostrou bem simples, possui umas reviravoltas muito interessantes a partir da metade do livro, que surpreendem até o final. A primeira parte da saga de Adapak se fecha, respostas são obtidas, e, no epílogo do livro, se abre um leque de possibilidades para o espadachim trilhar. Seu próximo livro está previsto para 2014!

terça-feira, 30 de julho de 2013

The Wake


Com roteiro de Scott Snyder e desenhos de Sean Murphy, "The Wake" foi lançado em maio deste ano e desde então vem recebendo elogios. Acho muito prematuro todo o burburinho, já que a segunda edição acabou de sair e a trama ainda está em desenvolvimento. Contudo é de se esperar tantos olhares, pois é o novo trabalho autoral de Snyder, o novo queridinho do universo dos quadrinhos.

"Vampiro Americano", da editora Vertigo, teve uma repercussão enorme na mídia pois estampava na capa o nome de Stephen King, ao lado do próprio Snyder e do artista brasileiro Rafael Albuquerque. Só que Stephen King teve apenas uma restrita participação nas primeiras edições e, após sua saída, a obra manteve uma qualidade impecável... Logo o trabalho de Scott Snyder foi reconhecido. Um contrato exclusivo com a DC Comics o tornou responsável pelas histórias mensais do Batman nessa recente era dos "Novos 52".

"The Wake" conta a história da doutora Lee Archer, uma bióloga especialista em vida submarina, mais precisamente nos sons emitidos por cetáceos (como baleias e golfinhos). Surpreendida por um agente do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS), ela é apresentada a uma gravação muito estranha, um som com características cetáceas, mas com um padrão extremamente complexo. Embora Lee não simpatize com o departamento - aparentemente possui alguma ação contra a DHS - ela acaba aceitando trabalhar com eles, mas somente por terem oferecido ajuda-la na custódia de seu filho.


Mesmo com essa introdução, acredite, a história não é simples. A narrativa apresenta saltos temporais enormes, mostrando cenas há duzentos anos no futuro e até mesmo há 100.000 anos no passado. Envolve temas como evolução, tecnologia... Tudo com muito mistério e uma pitada de terror. A trama tem um bom argumento e atiça o leitor: ainda é só o começo e já existem inúmeras questões.

A arte de Sean Murphy em associação com a coloração de Matt Hollingworth torna a ambientação única, tanto a céu aberto como nos ambientes fechados. Nesse caso, as cores mudam, mas sempre mantendo tons leves e pouco saturados. Os cenários e os meios de transportes são bem trabalhados, ricos em detalhes. O traço de Murphy é bem agradável e transpassa com eficiência a postura e personalidade dos personagens, principalmente da protagonista, bem independente e determinada.

Scott Snyder já mostrou que é talentoso. Apesar disso, excesso de mistério no desenvolvimento de uma história, se mal trabalhado, pode prejudicar a conclusão. Nunca fui fã de aventuras debaixo d´água, mas estou acreditando nessa. Mergulhando nas profundezas de "The Wake".

terça-feira, 23 de julho de 2013

DEATH OF THE FAMILY (BATMAN)

A recente saga da revista mensal do Batman, "Death of the Family" (outubro de 2012 até fevereiro de 2013), foi incrível. Vale ressaltar que nada tem a ver com a clássica saga da década de 1980, "A Death in the Family" (Uma Morte em Família), em que Jason Todd, o Robin da época, é assassinado violentamente pelo Coringa com um pé-de-cabra. "Death of the Family" - a tradução ficaria como "Morte da Família" - conta o retorno do Coringa, mais insano do que nunca, nesse recente universo dos "Novos 52".


Outra vez, o Coringa conseguiu escapar do Asilo Arkham... Porém, antes de partir, resolve deixar sua marca, pedindo para o "Criador de Bonecas" retirar cirurgicamente sua face, pregando-a na parede de sua cela. Desde esse mórbido incidente, o vilão fica desaparecido por quase um ano... Voltando sorrateiramente com um plano para recuperar seu rosto e desestruturar a família do homem morcego

Batman, Robin (Damian Wayne), Asa Noturna (Dick Grayson), Robin Vermelho (Tim Drake), Capuz Vermelho (Jason Todd), Bat-woman (Barbara Gordon)... Todos serão afetados pelo esquema elaborado do palhaço. O próprio mordomo de Bruce Wayne, Alfred Pennyworth, não é poupado, levando a todos à uma grande questão: o Coringa sabe da ligação do mordomo com o próprio Batman? O Coringa SABE a identidade do BATMAN?


Acompanhei a saga pelas revistas "Batman" e "Batman and Robin". Para mim foram suficientes para apreciar com empolgação e também apreensão todo o drama do grupo. Toda vez que o Coringa aparecia, mais tensa a trama ficava. Lembrou-me muito o Coringa mentecapto e violento de Alan Moore. Os roteiristas foram bem sucedidos em manter o clima de terror, além de explorar o humor negro no discurso do vilão. Ao recuperar seu rosto, ele resolve vesti-lo como uma máscara... Em certos quadros é possível perceber os detalhes, a carne em decomposição, as moscas sobrevoando... Na edição número 15 de "Batman and Robin", ele está com seu semblante de CABEÇA PRA BAIXO, mostrando seus olhos através da abertura de sua boca e seu sorriso pelas fendas de seus olhos. Aterrorizante.

"Death in the Family" merece destaque pelo bom trabalho que a equipe da DC Comics tem realizado com o personagem. Fiquei com receio de ler as revistas mensais da editora após "reboot" dos "Novos 52", mas, depois desse arco, tomei coragem e agora acompanho a trajetória do homem-morcego.

domingo, 5 de maio de 2013

Snapshot (Volumes 01 - 04)


Andy Diggle e Jock, a dupla responsável pala aclamada série "Os Perdedores" do selo Vertigo, se juntam novamente para um novo trabalho chamado "Snapshot", dessa vez publicado pelo selo Image. Disponível para compra via Comixology, foi publicado em quatro volumes, lançado em fevereiro deste ano nos EUA.

Jake Dobson é um típico nerd que trabalha numa loja de quadrinhos. Porém sua vida pacata vira de cabeça para baixo quando descobre um celular a caminho do trabalho. Sua alegria de ter encontrado aquele brinquedinho novo logo se torna um pesadelo quando descobre nele fotos de um violento assassinato. Agora o próximo alvo é ele e é só uma questão de tempo até o assassino o encontrar. 

A trama vai se mostrando mais e mais complexa e eletrizante ao longo de cada quadro. Uma misteriosa conspiração vai se desenhando e Jake se vê envolvido até o pescoço. Porém esse mistério é o ponto alto da história, tanto que quando tudo começa a ficar mais claro, a obra vai perdendo a graça... A arte de Jock, no preto e branco, oscilou entre o genial ao tosco. Seu estilo tende ao desleixo em vários momentos, com um acabamento corrido. Muitos quadros parecem esboços sem arte-finalização. Apesar disso ele faz um efeito interessante com as sombras, abusando do preto nas passagens mais angustiantes, muitas vezes encobrindo todo o rosto do personagem, como se seu espírito estivesse imerso em escuridão. Na última edição ele também faz um efeito interessante com a chuva, associando traços com respingos de nanquim.

Embora a arte seja uma questão polêmica, a quadrinização foi bem cinematográfica, com cenas dramáticas e perseguições alucinantes. Vale ressaltar o primeiro encontro entre Jake e o assassino, na loja de quadrinhos, momento esse de extrema tensão.

Com um roteiro bem amarrado, um pouco corrido e com um final que deve dividir opiniões, considero Snapshot um excelente thriller, mas que poderia ter sido melhor desenvolvido se a obra tivesse mais edições. Mesmo assim vale pelo tema e pela criatividade do enredo, já que hoje em dia é tão difícil ver algo original no mercado de quadrinhos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

The Umbrella Academy - Apocalypse Suite



The Umbrella Academy - Apocalypse Suite é uma história criada por Gerard Way, escritor e também cantor da banda My Chemical Romance, e desenhada pelo brasileiro Gabriel Ba (Daytripper, Casanova). Lançada pelo selo da Dark Horse em 2007, a obra acabou ganhando o prêmio Eisner em 2008 de Melhor Série Fechada.

O cientista e empresário Sir Reginald Hargreeves, conhecido como "O Monóculos", adotou sete crianças com poderes especiais com uma finalidade muito clara: salvar o mundo. Quando isso foi declarado para a mídia mundial, todos olharam com muita inquietação já que ninguém sabia que o planeta precisava ser salvo. Contudo, tempos depois, estranhos eventos puseram em questão a segurança das nações, levando esse grupo de jovens a agir contra os mais variados e escalafobéticos perigos.


Só que o tempo passa e aquelas crianças especiais se tornam adultos. E como qualquer família disfuncional especial, questões pra lá de complicadas acabam surgindo: desavenças, amores não correspondidos e inseguranças. Quem vê Gerard Way todo maquiado e com seu cabelinho lambido nas apresentações de My Chemical Romance pode até ponderar se vale a pena ler essa obra. Até mesmo ao escutar o rock emo / gothic / pop punk do escritor pode achar que seu trabalho não vale ser conferido já que sua música não corresponde ao seu gosto musical. Por favor, não se enganem!


Não é a toa que The Umbrella Academy ganhou um Eisner Award (o Oscar dos quadrinhos). Com um roteiro impressionante sobre uma temática já batida (super-heróis), Gerard trabalha a psique de cada personagem com esmero, levando o leitor a perceber as nuances dessas relações com diálogos carregados de drama e imagens que valem por mil palavras. Falando nisso, mais uma vez Gabriel Bá dá um show de arte, com seu traço bem marcado e dinâmico, levemente cartunesco, mesmo assim com o peso necessário para a trama. O responsável pelas cores, Dave Stewart, também realizou um trabalho magnífico, mudando a paleta de cores dependendo do ambiente, da época e do contexto.

Se você quer ação com drama de qualidade, deixe-se ser surpreendido por essa obra. Deixe The Umbrella Academy ser seu novo grupo de super-heróis.